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O fotógrafo Claudio Edinger lança o livro “Rio”, com exposição de fotos, no Espaço Paul Mitchell do Na Mata Cafédia 1º de dezembro às 20h

“...É preciso coragem e fé, para olhar pela milionésima vez uma paisagem que, de tão celebrada e gravada em nosso inconsciente, já nem é paisagem, é um cenário... Com seu Rio, Claudio Edinger nos prova que foi capaz de realizar tal proeza, nos oferecendo um conjunto de fotografias sobre a cidade dotado de rara coesão e valor...”
Pedro Karp Vasquez

Claudio Edinger, 51, lança o livro Rio (Editora DBA, 144 pág, R$ 100,00) com exposição de fotos, dia 1º de dezembro no Espaço Paul Mitchell do Na Mata Café.

O fotógrafo esboça este projeto há 30 anos. Nascido no Rio de Janeiro, Edinger cresceu em São Paulo, morou em Nova York mas sonhou durante todos esses anos com o verão carioca, com o aterro do flamengo, com o caminho até Copacabana e Ipanema.

Com a aquisição de uma máquina de negativo com grande formato, – quatro por cinco polegadas em novembro de 2001, o projeto tornou-se realidade. “Este ensaio fotográfico é uma tentativa de captar o sonho, a utopia, aquele lugar onde, como se fosse a câmara secreta de cada um, vamos nos recarregar para seguir em frente. O lugar onde nos despimos e idealmente encontramos a igualdade e a fraternidade: a praia”, conclui Edinger.

As fotos foram feitas entre dezembro de 2001 e março de 2003. Das 89 fotos P&B que compõem o livro, 25 foram ampliadas para a exposição.

Claudio Edinger recebeu duas vezes o Prêmio Leica de Excelência em 1983 e 1985 pelos seus livros Chelsea Hotel e Venice Beach. Recebeu o Prêmio Ernst Haas em 1990 pelo seu trabalho no asilo do Juqueri, o livro Madness. Seu livro Carnaval recebeu o prêmio Higashikawa do Japão, para o melhor fotógrafo estrangeiro em 1999 e a Bolsa Vitae em 1993. A revista American Photo escolheu seu livro Old Havana como um dos melhores do ano de 1997. Suas fotos para a revista Newsweek receberam o prêmio Pictures of The Year em 1996. A capa do seu livro Portraits foi escolhida como uma das melhores do ano pela Associação dos Designers Gráficos do Brasil. O livro Cityscapes foi indicado para o prêmio Jabuti em 2001. Seu trabalho já foi exposto no mundo todo e publicado nas maiores revistas do mundo. Este é o seu 11º livro.

Lançamento do livro e exposição de fotos
Rio do fotógrafo Claudio Edinger
Livro: Editora DBA, 144 pág, R$ 100,00
Exposição: 25 fotos P&B: 50 X 60cm; 30X40cm
Abertura: 1º de dezembro de 2003 às 20h
Data: até 18 de janeiro de 2003
A galeria fecha no dia 25 dezembro 2003 e reabre no dia 5 janeiro 2004
Local: Galeria Espaço Paul Mitchell do Na Mata Café
Rua da Mata, 70 – Itaim Bibi - ( (011) 3079.0300
Horário: de seg a sex das 10h às 20h; domingos das 10hàs 16h

Confira os textos de Claudio Edinger e Pedro Karp Vasquez para o livro

Memórias de um exilado carioca

Nasci no Rio de Janeiro em 1952 e fui exilado no ano seguinte: os meus pais mudaram-se para São Paulo, onde cresci. Todos os verões, eu retornava ao Rio para passar férias na casa de um anjo: a irmã do meu pai, a tia Uschi. Ela então recebia a família com uma hospitalidade e um bom humor espantosos. Meus primos Ivo, Marisa e Vivian eram muito queridos, e as nossas aventuras não eram poucas, com o bonde passando bem em frente de casa, no Alto da Boa Vista, e nos levando ao paraíso dos cinemas, dos hambúrgueres (Bob’s) e da pizza (Café Palheta), na praça Sáenz Peña. Na rua Muçu, ao lado do bonde, havia um córrego aonde a gente ia pescar. Na casa em frente, praticamente um sítio, íamos pegar jaca e manga. Nos domingos, a minha tia enchia a Kombi de amigos, familiares e caronas do bairro, e íamos todos para a praia na Barra da Tijuca. Uma viagem de uma hora, no mínimo. O meu tio George era um filósofo e seguia pelo menos dois princípios muito importantes: não faça xixi na nossa piscina – nós não nadamos na sua privada – e não deixe para amanhã o que pode deixar para depois de amanhã. Era o mais carioca dos alemães…
Em 1976, fui morar em Nova York. Durante cinco anos, fiquei sem visitar o Brasil, por problemas com a Imigração americana, morrendo de saudades daqui. Nos quinze anos seguintes, vinha a São Paulo pelo menos três meses ao ano e sempre visitava o Rio. Sonhava com a cidade delirante dos verões da minha infância e nunca deixava de me extasiar quando saía do Santos Dumont, passando pelo aterro do Flamengo em direção a Copacabana e Ipanema. A realidade era Nova York, com a sua vida acelerada, a tensão quase insuportável, diária, a vida de um fotógrafo estrangeiro que tentava sobreviver. O Rio era o sonho, o Rio da Bossa Nova, música que raramente conseguia escutar sem sentir angústia, saudade, banzo…
Este livro já existe na minha cabeça há uns trinta anos. Ele virou realidade quando comprei uma máquina de negativo com grande formato – quatro por cinco polegadas – já sabendo que iria fotografá-lo. Mas não só o Rio da minha infância. O Rio da minha memória é o Rio universal, lugar mítico onde não existem problemas, um porto calmo para todos se refazerem, uma capital da beleza no mundo com personagens geniais, um lugar inspirado. Claro que o Rio real não é nada disso. Mas vivemos o real, os problemas, o estresse, o tempo todo. Na verdade, o Rio são muitos Rios. O Rio que me interessa é o símbolo sagrado do Brasil, antiga capital, referência brasileira para o resto do mundo, onde a personalidade extrema e a beleza natural transcendem a especulação imobiliária, a violência desmedida, o trânsito insuportável e o crime organizado. Este ensaio fotográfico é uma tentativa de captar o sonho, a utopia, aquele lugar onde, como se fosse a câmara secreta de cada um, vamos nos recarregar para seguir em frente. O lugar onde nos despimos e idealmente encontramos a igualdade e a fraternidade: a praia.

Cláudio Edinger, 1º de novembro de 2003

Fluidez e permanência: Rio, de Claudio Edinger

Os fotógrafos amam as cidades e as cidades amam os fotógrafos. Diferentes fotógrafos amam diferentes cidades, mas em todos os países existe uma cidade que é amada por todos os fotógrafos, mesmo aqueles que não a fotografam, limitando-se a amá-la por intermédio das imagens dos outros. No Brasil esta cidade é a do Rio de Janeiro que, sem desdouro das demais, é a mais emblemática do país, a cidade síntese da brasilidade, no que isso pode haver de mais meritório e mais desabonador. Bela e fútil, sofisticada e escrachada, generosa e vil, cosmopolita e bairrista, o Rio se assemelha a um indivíduo capaz de viver simultaneamente todas as suas encarnações, congregando no lapso de uma só vida e no âmbito de um só corpo todo o espectro das possibilidades humanas, das diabólicas às divinas.

O Rio é para o Brasil aquilo que Paris é para a França e Nova York para os Estados Unidos: o irresistível magneto e o supremo desafio de todos os fotógrafos. Amadores ou profissionais, bons ou ruins, os fotógrafos são irresistivelmente atraídos pelo fulgor destas cidades como insetos são atraídos pelo brilho da chama de uma vela. Os menos dotados saem com as asas chamuscadas e os olhos ofuscados, os mais talentosos delas extraem calor e energia para vôos ambiciosos. Para ambos, a experiência é decisiva, de modo que contingentes cada vez maiores de fotógrafos se prestam a este desafio como quem se submete a um rito de passagem. Sim, pois é preciso certa dose de coragem ou total descompromisso com a história para ousar erguer uma câmara diante da paisagem mais conhecida e celebrada de um país, percorrendo com olhos ávidos e o coração palpitante as ruas já percorridas por forças expressivas tão marcantes quanto Eugène Atget, William Klein ou Marc Ferrez. É preciso coragem e fé, para olhar pela milionésima vez uma paisagem que, de tão celebrada e gravada em nosso inconsciente, já nem é paisagem, é um cenário, um artifício visual urdido pela superposição de milhões de fatias de sonhos, de forma similar à própria tessitura do filme, estruturado em camadas indissociáveis de material fotossensível.

Quem ama sempre se acha o inventor do amor, mesmo sabendo da existência de seis bilhões de indivíduos que pensam, pensaram ou pensarão um dia o mesmo. Todos pensam o mesmo e todos estão certos, pois o amor tem o secreto poder de reinventar a si mesmo, reinventando o mundo neste processo. A criação artística sendo uma forma expandida e solidária de amor, também é capaz de idêntica proeza, desde que, é claro, exista entrega total e irrestrita sinceridade no processo de produção. Com seu Rio, Claudio Edinger nos prova que foi capaz de realizar tal proeza, nos oferecendo um conjunto de fotografias sobre a cidade dotado de rara coesão e valor. Suas imagens transcendem o mero registro correto e atraente de uma cidade vaidosa que, a exemplo das celebridades escoladas, tende a impor uma visão padronizada e idealizada de si própria, transformando cada retrato num auto-retrato, mesmo quando executado por mãos alheias. Cidades e pessoas assim tão exigentes e ciosas do controle de suas imagens públicas, são difíceis de manipular. Quem delas deseja extrair algo mais do que o previsível, deve ser extremamente ardiloso e mestre em seu ofício. Deve ser como Claudio Edinger, hábil em descortinar a alma das pessoas e das cidades, penetrando sob a carapaça do visível para desvendar seus corações.

O curioso é que os pendores técnicos requeridos para a fotografia de retratos e de cidades são bastante distintos, costumando atrair indivíduos dotados de personalidades igualmente distintas. A cidade como ambiente é quase sempre hostil, porém como tema é dócil. Com as pessoas às vezes sucede o oposto, e o olhar mais dócil pode esconder o espírito mais inquebrantável. Com as pessoas no ambiente urbano sucede o pior: costumam virar quase coisas ou quase feras, meros figurantes alegrando o cenário com suas presenças ou destrutivos intrusos, empenhados em contaminar a tudo e a todos com o negro desespero que trazem no peito. Seja como for, seja onde for, no quarto do hotel Chelsea, num dormitório do asilo do Juqueri, em Nova York, em Havana, ou Calcutá, Claudio Edinger sabe extrair sempre o melhor das pessoas e das coisas, empenhando seu inegável talento e sua prodigiosa energia numa incansável viagem pelas zonas de lusco-fusco das pessoas e das cidades. Tudo que foge ao banal o atrai, tanto nas pessoas, quanto nas cidades. Seu primeiro livro, Chelsea Hotel, retratava os extravagantes locatários deste hotel sui generis onde Arthur C. Clark escreveu 2001: uma odisséia no espaço, e onde Sid Vicious encerrou seu périplo punk assassinando (?) — a dúvida ainda persiste — a namorada. Enquanto Carnaval oferecia um compassivo retrato da tristeza subjacente a essa orgia coletiva nacional, gigantesca e eficaz válvula de pressão a aliviar e sublimar as tensões sociais brasileiras. Ao passo que, contrastando com esta forma branda de loucura coletiva, socialmente aceita e encorajada, Loucura, expunha o desvario patológico dos internos do asilo paulista do Juqueri, onde centenas de pessoas aguardam a única libertação que lhes é facultada, a da morte, esquecidos da sociedade que não gosta de espelhos excessivamente fidedignos. Finalmente, seu talento para o retrato encontrou em Portraits, a expressão plástica mais elaborada, pois ao fotografar as celebridades neste incluídas, Edinger pôde empregar os recursos do métier de retratista que durante mais de duas décadas constituiu sua atividade profissional prioritária. Retratos de celebridades não são, obviamente, raros, mas se encaixam em sua busca pelos "pequenos universos ou enclaves de loucura", visto que a galáxia das estrelas da mídia é um mundo à parte, povoado por personagens excêntricos, no sentido em que todo desvio à regra implica num afastamento do centro, num descolamento da norma.

Entre seus livros dedicados a cidades, Havana Velha tem perfil peculiar por efetuar um inventário da parte antiga da capital cubana não a partir de seus prédios carcomidos pelo estiolar de sonhos de gerações sucessivas, e sim por intermédio de seus habitantes, daqueles que, vítimas da história, e inventores do próprio futuro, insistem em manter a dignidade possível enquanto persiste a absurda, e já demasiado longa, queda de braço de Davi contra Golias protagonizada por Fidel e os sucessivos presidentes norte-americanos. Em Cityscapes, Claudio Edinger prestou seu tributo à cidade de Nova York, onde morou entre 1976 e 1996, firmando-se neste período como colaborador da agência francesa de fotojornalismo Gamma. Este livro é para Edinger um divisor de águas, já que ele se aparta mais claramente da visão documental que foi a sua por tantos anos, para incorporar uma subjetividade crescente, focalizando a cidade com liberdade semelhante àquela de William Klein ao realizar seu emblemático livro sobre a cidade, New York (1954). Desfocando e despersonalizando os transeuntes, Edinger evidenciou o caráter de insetos humanos dos habitantes do formidável formigueiro nova-iorquino, apequenados e esmagados por uma arquitetura saída das mentes megalômanas e delirantes de sucessivos Molochs. De forma bastante evidente, Cityscapes já antecipava o olhar libertário e pessoal deste Rio com o qual ele nos presenteia na comemoração de seus 20 anos de produção de livros de fotografia.

Culminância de uma carreira sólida e bem conduzida, Rio evidencia a versatilidade técnica de Edinger, um autor que transita com desenvoltura por vários formatos, saltando do preto e branco para a cor com o mesmo desembaraço. Seus primeiros livros, datados da década de 1980, foram feitos em 35mm — o formato clássico do fotógrafo documental —, os da década de 1990 foram realizados em 6 x 6, formato por certo tempo desdenhado, mas que nos últimos anos tem exercido forte atração sobre alguns dos mais expressivos nomes da fotografia brasileira, como Mário Cravo Neto, Miguel Rio Branco, Marcos Prado e Cristiano Mascaro, este um cultor de primeira hora deste desafiador quadrado que, por ser uma expressão geométrica da perfeição, só rende bem nas mãos de fotógrafos técnica e estilisticamente maduros. Agora, neste início de século, Claudio Edinger enfrenta um desafio ainda maior, o das câmaras que utilizam filmes de 4 x 5 polegadas (cerca de 10 x 12,5 cm). Obviamente, existem casos em que tais considerações acerca do formato de filme são tão dispensáveis quanto a tentativa de descobrir a marca dos pincéis de Picasso. Todavia, neste caso específico, tal comentário tem razão de ser, já que Edinger subverte as regras do 4 x 5 utilizando-o com a desenvoltura e o dinamismo de quem opera com 35.

No imaginário fotográfico, as câmaras de grande formato normalmente são associadas ao paisagismo ou ao enfoque reflexivo e tecnicista da straight photography, empenhada em "mostrar as coisas como elas são", com a maior fidelidade possível. No auge destas duas correntes nos Estados Unidos, tais câmaras eram mais do que instrumentos eram verdadeiros objetos de culto, fetiches tecnológicos preservados com o mesmo desvelo com que um violinista conserva um Stradivarius. Alguns fotógrafos, entre os mais conhecidos, como Edward Weston, Ansel Adams e Paul Strand chegaram a adquirir câmaras antigas de corpo de madeira — que haviam sido efetivamente usadas por seus predecessores oitocentistas —, e a pesquisar procedimentos técnicos clássicos na ânsia de atingir um grau máximo de verdade fotográfica. Busca em tudo similar a dos alquimistas modernos, procurando em meio às suas provetas e retortas atingir o grau máximo de pureza da matéria, graças à reprodução de fórmulas e procedimentos ancestrais.

Respaldado em seu sólido conhecimento técnico, já atestado em uma dezena de livros, Claudio Edinger arrancou a câmara 4 x 5 de seu habitual ambiente de cautela e veneração para arrastá-la pelo universo profano, hedonista, irritadiço e acelerado da cidade do Rio de Janeiro. Postura que evoca a do músico francês de formação clássica Jean-Luc Ponty nos idos da década de 1970 — quando o rock ainda podia ser inteligente — ao misturar seu violino às guitarras do Mothers of Invention do inquieto Frank Zappa. Ambos não buscaram o diferente pelo diferente, cultuando a dissonância pela dissonância numa postura ingênua do adolescente revoltado que deseja destruir o mundo sem ter idéia de como pretende reconstruí-lo depois. Muito pelo contrário, a busca de Ponty e de Edinger se assemelha mais ao dodecafonismo de um Arnold Schönberg, preocupado em instaurar uma nova ordem musical que não rejeita os aportes clássicos, mas — preconizando o livre emprego dos 12 semitons da escala temperada — busca expandir seus limites em direção a territórios mais vastos e estimulantes. Assim, não encontramos em Rio a decantada nitidez nem a composição aristocrática características das paisagens realizadas com câmaras de grande formato, e sim imagens dinâmicas, vibrantes, com grandes áreas de foco impreciso, como se houvessem sido entrevistas da janela de um carro em movimento, ou mesmo através do visor embaçado de um capacete de moto. São imagens trepidantes que traduzem a turbulência da cidade aflita na ânsia da busca da felicidade perdida mas ainda prometida por seu epíteto de maravilhosa. Imagens em nada semelhantes às normalmente produzidas pelas câmaras de grande formato, preferencialmente voltadas para a exaltação da beleza e das certezas nascidas de um certo ponto de equilíbrio que o Rio já perdeu há muito. Essa opção pelo desfoque seletivo, que pode ser entendida de diversas formas — onirismo, descolamento do real, idealização, etc. — também deve ter concreta origem no saudosismo, em virtude da própria história pessoal de Claudio Edinger, um carioca que muitos acreditam ser um paulista nova-iorquino. A verdade é que Edinger nasceu na abençoada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, mas por injunções familiares foi desterrado na infância para a paulicéia, de onde retornava pressuroso todas as férias para saborear a vida encantada do verão carioca. Adulto, viveu durante duas décadas em Nova York, epicentro do fazer fotográfico, antes de retornar a São Paulo. Entretanto, guardou o Rio em seu coração, ardendo no peito como a Itabira de Drummond, qual benigna chaga para a qual não se procura lenitivo na ânsia de torná-la crônica e incurável. Tendo atingido seu ponto de excelência, Claudio Edinger ousou trilhar novamente a longa e sinuosa estrada da memória para celebrar fotograficamente esse seu irrefreável caso de amor com o Rio, produzindo um trabalho destinado a figurar em posição destacada no panteão dos relacionamentos emblemáticos dos grandes fotógrafos com as grandes cidades.

Para concluir, resta salientar o fato de ser Claudio Edinger um dos fotógrafos brasileiros mais bem dotados para empregar o livro como forma de expressão. Com efeito, ele é dos raros a compreender que o livro fotográfico não deve ser apenas o repositório de boas imagens, pois tal é o apanágio dos álbuns, onde cada imagem vale por si e o todo é apenas o conjunto de circunstâncias coincidentes: mesmas pessoas, mesmo local, mesma temática, mesmo período. O livro fotográfico em sua forma mais elaborada deve prescindir ou ultrapassar tais circunstâncias e ser estruturado a partir de uma lógica própria, inerente à especificidade da fotografia e em muito semelhante à lógica da montagem cinematográfica. O bom livro fotográfico, como o bom filme, é um corpus de imagem técnica constituído por micro-universos visuais relacionando-se entre si num continuum sabiamente arquitetado que, para ser mais eficiente, não deve ser percebido pelo espectador/leitor. É trabalho árduo, é trabalho de mestre, fruto de um longo aprendizado. Como os fotógrafos são compelidos pela própria natureza fragmentária do ofício a compartimentar excessivamente o olhar, poucos são entre eles aqueles tão bons na concepção de livros quanto na produção de imagens isoladas. No Brasil, sinceramente, só vejo uma pessoa que usa o livro como veículo para a fotografia de forma tão inteligente quanto Claudio Edinger: Miguel Rio Branco. Ambos estão em boa companhia, como estão em boa companhia os leitores deste Rio, que flui direto do manancial das saudades do autor para os corações de seus leitores e os anais da história.

Pedro Karp Vasquez

Formado em Cinema na Université de la Sorbonne (Paris, França), Pedro Karp Vasquez obteve seu mestrado na Universidade Federal Fluminense (Niterói, RJ). Na década de 1980, foi responsável pela criação do Instituto Nacional da Fotografia da Funarte e do Departamento de Fotografia, Vídeo e Novas Tecnologias do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.Membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, é autor de 18 livros, entre os quais se destacam: "Dom Pedro II e a Fotografia no Brasil"; "Fotógrafos Alemães no Brasil do Século XIX"; e "Postaes do Brasil".

 

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